CURRÍCULO – RECONSTRUÇÃO DE NOSSA CASA COMUM

Por Fernando José de Almeida *

Se o tema é currículo cumpre iniciar tudo pelo breve esclarecimento sobre sua finalidade e sua composição conceitual.

Para que serve um currículo? (Currículo quer dizer caminho breve).

Caminho para tornar claro aonde se quer chegar. Mas não para uma viagem de turismo. Para uma viagem para o conhecimento sobre o sentido da vida, de si próprio, da sociedade e da inserção de cada um neste mundo.

Todas as instituições têm de alguma forma o seu currículo: a família tem seu currículo. As Igrejas têm seus currículos. Uma escola de costura cria seu currículo. Os partidos políticos desenham o seu, o reformulam, o traem ou o realizam com perfeição. Todos os agentes sociais que querem ensinar alguma coisa, comprometem-se com seus currículos e por eles são avaliados em sua eficácia social.

A sua primeira questão é, insisto, aonde se quer chegar com o seu aparato, seus conteúdos, seus métodos?

O algoritmo de sua constituição é muito semelhante em todas as instituições. Mas sua construção para a educação formal e pública não é óbvia nem trivial e, menos ainda, sua operação.

Com relação ao currículo escolar os fundamentos são (muito simplificadamente) compostos de cinco peças que atravessam toda sua construção.

1. O MUNDO

Para se construir um currículo sempre se supõe (ou se deveria supor e explicitar) esclarecer uma visão do que é o mundo em que vivemos. O que ele é? O que tem sido, como evoluiu ou se degradou? Por que ele é assim? Como foi sua história, sua evolução, não apenas de sua situação no universo intergaláctico, mas como sua composição química, sua história geológica de conformação nos bilhões de anos de sua existência. A vida sempre existiu? Há planetas sem vida? A vida terrestre já foi dizimada? Temos riscos?

Que carbonos me compõem? Onde durmo e onde vou morrer. De que terras, águas, minerais e vegetais sou composto?

Lançar tais questões – e buscar equacioná-las – são as finalidades da escola e de sua construção de conhecimento por meio do currículo. A curiosidade humana é nata enquanto forma de compreender as fugas para a sobrevivência, mas seu aperfeiçoamento não é espontâneo. É fruto da cultura e, portanto, construída arduamente. O currículo escolar se compromete com o equacionamento de tais questões.

2. A SOCIEDADE

O ser humano é gregário por quê?

É o ser mais frágil de todos quando sozinho, mas os mais poderosos dos seres quando juntos e quando criam mitos e projetos. Grupos, tribos, cidades, civilizações, impérios, desaparecimentos e nascimentos de artes, cavernas, exércitos e guerras. Por exemplo, as religiões agrupam o ser humano em torno da solidariedade e fazem a guerra fratricidas com igual poder.

As viagens interplanetárias assim como o poderio atômico que gera energia elétrica e tratamento de câncer, e destrói, em segundos, toda a vida da região por anos e anos. Tudo isso é resultado de como se organiza a vida social.

Como se constroem e destroem as sociedades e como se as mantêm e se as desumanizam?

Viver junto é bom e possível ou o homem é lobo de si mesmo?

Uma campanha televisiva, feita em 2018, tratou da sociedade que a população queria abstratamente (como se fosse possível querer algo novo, sem conhecer a realidade atual e quais são as causas de suas mazelas). O “Brasil que eu quero” sem saber do “Brasil que temos” e porque ele se tornou ou por que ele é assim. Tal questão, que não coloca a sociedade como objeto de estudos antes de propor suas soluções, torna-se um programa de quimeras como se o simples desejar carregasse a força de transformar o real automática e espontaneamente.

Paulo Freire dizia que a verdadeira utopia era ser capaz de denunciar a realidade para depois anunciar o novo. O anúncio sem a denúncia é falsa utopia, diz Freire. Nesse sentido, o conhecimento da sociedade, da sua economia, sua história, da organização de seus territórios, de suas geologias, de suas fronteiras, riquezas, carências, de suas expressões cartográficas, suas formas de trocas e economias levam a uma visão realista do futuro, permitindo aos estudantes serem cidadãos de um mundo que pode ser transformado a partir de seu conhecimento crítico.

Lançar tais questões – e equacioná-las – são as finalidades da escola e de seu modo de construir conhecimento por meio do currículo e de sua complexa rede de significados.

3. O CONHECIMENTO

O ser humano se apropria da realidade e constrói-se a si mesmo de várias maneiras. Por meio da força, da caça, da guerra, das habilidades físicas, da capacidade de sonhar, de cantar, de dançar, de fazer o fogo e de se relacionar.

O conhecimento sistemático foi se organizando em torno da vida social e se destacando como eficaz forma de sobrevivência, de autoconhecimento e de geração de poder. Sobretudo do Poder.

O conhecimento sistemático, organizado e transmitido por tantas gerações, nas mais diferentes civilizações, são depositados em diversas instituições sociais como legado. A organização e documentação de tais conhecimentos foram feitos pelos Árabes, pelos Chineses e Japoneses, pelos Gregos e pelas armas e civilizações romanas se fixaram na Europa, como uma das formas de organizar o pensamento Ocidental do qual somos destinatários.

A lógica, a filosofia, a matemática, a história, a literatura, a filosofia, a física, a biologia, a química, entre tantas, foram sendo construídas e seus contributos à interpretação da vida e das pessoas humanas e de suas sociedade se aperfeiçoaram, facilitaram progressos na vida. Nem todos seus usos foram bons nem para todos, mas o poder do conhecimento é reconhecido e cresce dia a dia.

Um problema bem contemporâneo é o da redução do conhecimento à mercadoria de consumo. Por que isso? O conhecimento deixa de ocupar o lugar das consciências e individualidades para se condensar em grandes redes digitais. Plataformas, sites, nuvens, big datas, redes de informações aglutinam todo o conhecimento em torno de redes proprietárias, indexadas segundo critérios próprios, num processo de centralização nunca visto.

O conhecimento não se reduz aos temas lógicos e procedimentais apontados acima mas ele se estende às artes e à cultura em geral. O teatro, a arquitetura, a poesia, as peças artesanais, as festas religiosas, os esportes informais, os jogos infantis, as lendas e contos da tradição agrícola ou familiares reproduzem um conhecimento que dão fundamentos ao convívio e ao sentido da vida.

4. O CONHECIMENTO ESCOLAR

A síntese de todos estes valores e dessas construções humanas é a função de um currículo escolar e de seu aparato didático, de seus materiais e ritos.

Como assim?

O conhecimento escolar é um conhecimento especial. Vamos distingui-lo de outros para ficar mais fácil reconhecê-lo, pois tem havido muita mistura nos últimos 50 anos!!

Ele não é o mesmo feito pela família – que tem no afeto o seu grande mobilizador cognitivo. As crianças aprendem a se portar socialmente, como cidadãos ou operativamente, por motivos afetivos. Eles aprendem por que querem agradar a família que, de um lado, a alimenta e, de outro, a protege. Sendo assim, a eficácia e a finalidade da educação na família é que as crianças aprendem seus modos de ser social para conquistar o afeto. Agradar e não desagradar o grupo familiar, aí entendidos os parentes, vizinhos e amigos.

A educação aprendida no “currículo” das igrejas traz os conteúdos da fé e do desejo da salvação eterna e do agrado à divindade. Seu currículo é mobilizado pela crença em outro mundo e em um outro tempo.

Houve e está havendo um tempo (para ser simples, os últimos 50 anos) em que as funções de outras agências sociais transferem sub-repticiamente para as escolas suas funções e sobrecarregam a escola de atividades que não lhes são próprias. O que não faz que a sociedade deixe de cobrar da escola suas essenciais funções: ler, escrever, pensar cientificamente, saber literatura, ter cultura geral e a adequação às exigências de formação para o mercado de trabalho, entrar nas universidades. A escola contemporânea vive esta pressão de duplo lado: da sobrecarga (educação sexual, afetiva, religiosa, educação contra as drogas…) e sua função de preparar para um mercado de trabalho, nada claro, em função das novas demandas e do desaparecimento dos empregos convencionais. Neste sentido é indesejável a pressão de fora para dentro sobre a escola que a desvia de seu trabalho de ensinar os valores da vida, via conhecimento formal e da cultura, como forma de compreender a existência humana e dela participar.

O QUE É ELE, O CONHECIMENTO ESCOLAR?

O conhecimento escolar define-se pelos objetivos de formar o pensamento lógico, cultural, científico, orgânico, procedimental, artístico, conteudístico, enquanto saber em si, e a ética e estética enquanto valores que norteiam a escolha de conteúdos e formas de convívio social. Objetivos também da escola.

O sentido do conhecimento escolar é também o de não ter aplicação imediata: trata do valor do saber em si, do conhecimento, da admiração pelo pensar em si. Neste sentido, o saber escolar não serve mas é servido. Ele tem um valor em si e não é apenas pragmático, como vem defendendo algumas visões atuais da educação: “formar para o ingresso no mundo trabalho” (como se a educação escolar produzisse vagas ou postos de trabalho, competência da economia!).

A questão das novas funções da economia liberal, todo poderosa e exacerbante, quanto aos seus fins e meios, traz à escola uma nova forma de ressignificar sua função: a escola

Ser um agente de reflexão sobre o mundo, sobre a sociedade e sobre o que é o conhecimento e seu valor.

É disso que nosso texto trata: como reprogramar seu currículo, sem perder, em nada a função da escola, para atender ao maior problema pelo qual a humanidade já passou. Trata, neste início de século XXI, de encarar este novo modelo civilizatório dedicado ao individualismo possessivo, acumulador possessivo e segregador. Algumas de suas mais significativas demonstrações são reveladas pela devastação ambiental, pela perda do convívio entre os homens, pelas novas formas de escravidão contemporâneas, pela segregação das grandes cidades, assim como das guerras mais devastadoras e ubíquas, pela produção de milhões de refugiados e pela fome ainda endêmica.

Para isso é importante que o currículo escolar se dedique ao ensino da economia, aqui chamada de Economia de Francisco.

Trata-se de uma visão de economia entendida como a “organização da casa”. Economia que considera agora a “terra como nossa casa comum”, e portanto, a economia como manifestação da ética, estética e que viabiliza o mais fundo sentido do convívio humano.

Lançar tais questões – e equacioná-las – são as finalidades da escola e de sua construção de conhecimento por meio do currículo. Ela é uma parte da construção da curiosidade inicial mas de uma cultura de atribuição de significados sempre mais sofisticados e profundos. A construção da curiosidade e da indignação para com as dificuldades da economia não é algo espontâneo.

Frequentemente as novas gerações – assim como as antigas – são estimuladas à acomodação do consumo de conhecimentos já prontos ou palatáveis, a baixo custo e sem esforço. O currículo “pre-ocupado” com as novas temáticas de uma economia solidária, não brota espontaneamente, mas é objeto de uma complexa articulação e política-educacional.

Se as escolas contemporâneas, principalmente as públicas, se debruçarem sobre uma reorganização curricular que parta destes princípios, os currículos seriam articulados de outra maneira. É importante que, num momento como o que o Brasil passa a implementar sua Base Nacional Curricular Comum, este tema se evidencie com urgência em suas implantações nas escolas brasileiras. O desafio na implementação de currículos realmente inovadores é conseguir escapar: da desvalorização sistemática do conhecimento defendida pelas mídias internacionais; da entrega dócil da inteligência dos jovens às tecnologias das nuvens; da pela desvalorização da memória substituída pela consulta rápida a um banco de dados único; da aprendizagem pouco crítica advinda dos conhecimentos trazidos pelas famílias urbanas nucleares; da redução da aprendizagem à gamificação dos problemas, entre outros.

O currículo crítico e que vai além da cultura de um país ou de uma dada economia é o que pode ser produzido no contexto transnacional de nossos problemas. Nele se revelam em primeira página o compromisso de todos com o “bem comum”, ainda hoje muito comprometido com os valores da república, da democracia, com a construção coletiva da verdade, com a equidade e com a coesão social sobretudo com o compromisso com a não discriminação de grupos e minorias, valorizando as diferenças como constituidoras de novas identidades.

A cultura alardeada como inovadora da busca pelo protagonismo juvenil e do “salve-se quem puder” ou das star-up ou do empreendedorismo é a destruição da escola e do seu sentido civilizatório e humanista. Atenção aos engôdos do individualismo embutido em tais slogans leva sorrateiramente à desatenção e desresponsabilização do Estado para com os grupos mais carentes e com o esvaziamento de sua função de cuidar do bem comum. A livre concorrência neste caso da educação é a proclamação do direito do mais forte.

5. NÃO SE TRATA DE CRIAR NOVAS DISCIPLINAS

Um dos vícios de quem vê que a educação escolar precisa se atualizar com relação a temas e procedimentos é o de propor a criação de uma nova disciplina: sexualidade, educação para o trânsito, boas maneiras, religião ou educação socioafetiva…. trata-se de um engano. O importante, ao nos aperceber que a realidade traz novos problemas à sociedade, é buscarmos no interior do currículo as diferentes e ricas áreas de conhecimento da escola onde tais problemas podem e devem ser tratados pelas ciências que lhes são atinentes: as ciências humanas, as ciências da natureza, a matemática, as estéticas, as ciências do corpo e do movimento, a filosofia etc. Cabe à estrutura pedagógica da escola colocar tais áreas para conversar e descobrir os pontos que lhe são pertinentes no novo tema-problema. No nosso caso da urgência de ‘preservar nossa casa comum’, trata-se de elaborar a permeação dos valores de tal ‘preservação da casa comum’ no interior de todas as disciplinas já existentes. Na literatura, na química, biologia filosofia, na matemática. Em todas estas disciplinas e áreas os temas da economia, do desenvolvimento sustentável, preservação ambiental seriam grandes articuladores das demais áreas do conhecimento e das práticas escolares. Aqui se desenvolve uma das importantes noções epistemológicas produzidas no século XX, a interdisciplinaridade. O diálogo comprometido com as diferentes áreas do saber. Economia solidária e libertária como conceito de participação dos bens coletivamente produzidos….. divisão de bens com justiça, bases mínimas a partir das quais constrói-se a justiça dos sistemas de tributação, ou das colheitas comuns, a verificação das formas de produção de vida entre os indígenas, o estímulo às redes solidárias de produção e tratamento de terra dentro de perspectivas de rodízio de plantio e a diminuição de defensivos agrícolas – todas são formas de compreender que a produção agrícola e extrativista podem ter evolução históricas de grande qualidade. Transformar as florestas e zonas climáticas, assim como as savanas, em ambientes explorados por tecnologias 4.0 – sem derrubar florestas – onde a biodiversidade vale mais que a criação de gado. Tal exploração revela-se altamente rentável, como comprovado por estudos da Rede Brasileira de Pesquisas sobre as Mudanças Climáticas, afirmado por Marcos Nobre1. Análises dos impactos da economia nas diferentes formas de vida social como a família, as relações amorosas, a mobilidade urbana, o lazer, as artes, as doenças, fazem parte de conteúdos da economia da casa comum e que o currículo escolar pode trazer como conteúdos para sua interpretação a literatura, a geografia, a história, a matemática assim como a física, biologia e química. Tudo de tais disciplinas e áreas de conhecimento se articula e coopera para a compreensão da natureza, da história e do sentido da vida coletiva entre os homens. É de cunho filosófico a análise apresentada nos trabalhos de Valverde (2019) que apontam para a construção delicada das contribuições e visões históricas sobre a relação homem natureza. Em seu trabalho se evidenciam as proposta da ética da corresponsabilidade de Hans Jonas (2013) com relação às violências contra a natureza. Em suma: menos consumo e menos degradação, menos individualismo, mais corresponsabilidade pela vida comum.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, F.J “Base Curricular Transnacional para os países do Mercosul”. In: SIQUEIRA I. C. (org.). Subsídios à BNCC: Estudos sobre temas estratégicos. CNE/Unesco/organização Fundação Santillana. São Paulo: Moderna, 2018.

JONAS, Hans. “Técnica, Medicina, e ética: sobre a prática do princípio de responsabilidade”. São Paulo: Paulus, 2013.

SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Educação: O Currículo da Cidade de São Paulo e o compromisso com os ODS-2030. São Paulo: SME, 2017.

UNESCO. Os objetivos do Desenvolvimento Sustentável 2030. Unesco.

VALVERDE, A. R. “Ética da responsabilidade, civilização tecnológica e violência contra a natureza”. In: ALMEIDA, TORREZAN, LIMA E CATELLI (org.). Cultura, Educação e Tecnologias em debate. Realização PUC-SP; Cetic.br: Serviço Social do Comércio. São Paulo: SESC-São Paulo, 2019.

1 Marcos A. Nobre, no programa Roda Viva da TV CULTURA em 28 de outubro de 2019.

 * Professor Pós-graduação em Educação: Currículo – PUC-SP

 

Economia de Francisco

Economia de Francisco e Clara

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.