E se não fossem elas?

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João Pessoa: Padre Jean

E se não fossem elas? A cada 8 de março se reacende a memória mídica de que a mulher existe e precisa ser homenageada. A tv, rádio, agora a internet, a escola e às vezes a Igreja se lembra de que a mulher existe. Afinal, ela existe todos os outros mais de 360 dias do ano e por onde passam deixam a marca da força que tem, deixam o rastro de suas peregrinas pegadas, o sorriso e a alegria, a dor e a lágrima, a perseverança e a persistência, a identidade firmada. Em um mundo homem/cêntrico; que transpira machismo consciente e inconsciente; de uma sociedade onde o poder da fala, da posição, da decisão, da concentração, do domínio, da administração, da governança, das ditas regras, das ditas normas e das ditaduras, ser mulher é uma conquista. Mais que conquista é um processo permanente de luta. Luta é um verbo persistente e tem produzido lentos incômodos aos sistemas sociais, políticos, econômicos e religiosos dominados por homens que sem a mão, os pés, o coração e alma da mulher enfartariam todos. Sim, todos dependentes do poder criativo, da inteligência afetiva, da sensibilidade intuitiva, da ferocidade argumentativa, da percepção acordada e do empoderamento fértil, da paixão crítica, da lucidez cotidiana e dos olhos de águia da mulher. Que seria de nós sem elas? Encontro essa mulher na família, totalmente engajada por amor a cuidar de seus sistema de vida, enfrentando os padrões de morte, cuidando e amando os filhos, e de quebra suportando o tipo de homem bebê, que se tornou seu marido, mas que agarrado emocionalmente a barra da saia da mãe não sabe fritar um ovo e ainda fala grosso, fala alto e canta de galo. Corajosas são as mulheres do terceiro turno. Corajosas são por que fazem isso com bravura, e quando exigem igualdade nas responsabilidades ainda são vítimas de uma sociedade que as questiona por que casaram. Encontro essa mulher no trabalho, aguerrida, responsável, competente, desafiando os postos antes somente entregue aos homens, e simplesmente por serem tão sabias no que fazem ameaçam o macho que sabe dar ordens.  Eu as encontro na política partidária e não partidária, no congresso, na câmara, nas causas sociais, nos movimentos em favor da vida, de uma nova ordem social e por um mundo justo e igualitário. Eu as encontro nas igrejas, mulher feito Igreja colaboram, trabalham, constroem o Reino, são discípulas e testemunhas da Ressurreição do Cristo, quase nunca reconhecidas e amadas. Distante ideologicamente do altar e quando estão devem quase vestir-se como os homens que servem ao altar. Silenciosamente fazem quase tudo e incompreendidas tantas e tantas vezes choram as injustiças de um sistema religioso que mantém seu poder religioso e econômico no masculino ordenado. Elas cuidam do altar, limpam as igrejas e as enfeitam de flores, correm atrás do dízimo, estão à frente das novenas, dos círculos bíblicos, visitam os doentes, rezam, sim rezam. Verdade até por nós padres elas rezam.   Elas são mães, esposas, irmãs, filhas, avós. São agricultoras, professoras, administradoras, políticas, religiosas, médicas, enfermeiras, costureiras, motoristas, policiais, militantes, faxineiras, garis, empregadas domésticas, sim empregadas que vão a Disney, que maravilha! Elas são artistas, musicistas, juízas, advogadas, delegadas, promotoras, costureiras, cozinheiras, são isso e muito mais, são o que profissionalmente quiserem ser, pois todos os ofícios as comportam, com sua maestria e engajamento. Hoje minha prece é por todas elas. Primeiro uma prece de compaixão por aquelas que reproduzem as falas e vontades dos homens e fazem seus caprichos e se perdem de si mesmas, por medo, falta de identidade, de empoderamento e de militância. Estão em todos lugares: do Planalto às igrejas. Estão tão somente a serviço do masculino como peça, vaso, alma penada. Rezo muito dolorosamente por elas. Rezo também pelas que conheço e me fazem um bem enorme: o que seria de meu caminho sem Maria de Nazaré, a quem carinhosamente chamo de Nossa Senhora, dona Dulcineia, minha mãe, meu útero. Minhas irmãs todas, as de sangue, as espirituais. As amigas, as quem partilham comigo o sonho de uma vida mais feliz, mais humana, mais digna. As que me fazem ser mais humano, menos machista, as que me fazem reconhecer o feminino que habita em meu masculino, as que me enfrentam sem medo ou com medo, mas me amam sem limites. As que tem a coragem de na vida seguirem comigo. Rezo por todas estas e também por todas as outras. Que seja feliz o seu ser mulher e gratidão por vocês existirem.

Abraço fraterno do amigo irmão Padre Jean, Arquidiocese da Paraíba.

 

 

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